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Louvor a FÉ

Fé é o fator mental que atua, principalmente, para eliminar a antifé.
Entender a Mente
Geshe Kelsang Gyatso

Para compreender esse fator mental, temos que compreender o que é antifé.
Existem três tipos de antifé:

  • de descrença,
  • de não-admiração e
  • de não-almejar.

  • Antifé de descrença é não crer num objeto correto, no qual precisamos acreditar para fazer progressos espirituais, como por exemplo os objetos explicados nos ensinamentos de Darma. Quando recebemos ensinamentos corretos sobre o carma, a lei das ações e seus efeitos, e não acreditamos nisso, é certo que a antifé de descrença está presente em nossa mente.
  • Antifé de não-admiração é um fator mental que nos faz enxergar falhas em objetos virtuosos, como nossos professores de Darma, as Três Jóias e outros seres sagrados; isso torna nossa mente obscura e confusa.
  • Antifé de não-almejar é uma mente que não aspira obter aquisições virtuosas; ela nos impede de gerar o desejo de seguir os caminhos espirituais que conduzem à libertação e à iluminação.

  • Esses três tipos de antifé são muito prejudiciais.
A antifé de descrença obstrui nossas práticas espirituais e a aquisição de realizações de Darma. Ela é prejudicial até para quem não se interessa pelo Darma. Por exemplo, muitas doenças, diagnosticadas como câncer, na realidade, são causadas por espíritos ou por algum carma anterior. Embora não possam ser curadas por tratamentos convencionais, poderiam sê-lo por meio de certos rituais de cura e práticas de purificação ensinados por Buda. No entanto, a efetividade de tais tratamentos depende da fé depositada neles. Infelizmente, no Ocidente poucas pessoas têm fé nesses métodos e, por isso, temos poucas oportunidades de testemunhar seus efeitos benéficos.
A antifé de não-admiração rouba-nos a paz mental e torna nosso espírito turbulento e poluído. Como resultado, nossas mentes virtuosas diminuem e não somos capazes de gerar uma experiência pura de Darma. 
A antifé de não-almejar nos prejudica por nos impedir de praticar o Darma puramente. No momento, nossa vontade de desfrutar os prazeres do samsara é muito mais forte que nosso desejo de obter aquisições espirituais. Por causa disso, não conseguimos praticar puramente e nos deixamos distrair por interesses mundanos.

A fé é o fator mental que supera esses três tipos de antifé.
Função da fé
A função especial da fé é induzir aspirações virtuosas em nossa mente. Se não tivermos fé em uma determinada prática, não sentiremos o desejo de fazê-la; sem esse desejo, não investiremos esforço e, portanto, não obteremos resultados. Fé é a raiz de todas as aquisições virtuosas. Com fé em Buda, vamos gerar a aspiração de nos tornar como ele e isso nos estimulará a praticar os caminhos mahayanas continuamente e com alegria.
A fé é particularmente importante na prática do mantra secreto. Um aspecto essencial da prática do tantra é a recitação de mantras. Contudo, o sucesso disso depende em grande medida da força de nossa fé. Uma pessoa sem fé pode recitar o mantra de sua deidade anos a fio e nunca alcançar aquisições, ao passo que alguém com pura fé poderá obter resultados após um curto período de recitação.

No sutra Luz da jóia (Ratnalokanamadharani, em sânscrito), Buda diz:

A fé antecede todas as atividades virtuosas, como uma mãe.
Protege e aumenta todas as qualidades benéficas,
Desfaz a hesitação e nos salva dos quatro rios.
A fé é fonte do siddhi de felicidade.
Desfaz máculas e turbulência mental, torna a mente clara,
Elimina o orgulho e é raiz de respeito.
A fé é riqueza suprema, tesouro e pernas;
É como mãos, com as quais reunimos virtudes.

Assim como uma mãe dá à luz seus filhos, a fé dá origem a todas as atividades virtuosas e, do mesmo modo que sem mãe não há criança, sem fé não há práticas puras e virtuosas. Além de impedir a degeneração das qualidades virtuosas, ela faculta o crescimento das mesmas.
  • A fé de acreditar dissipa dúvidas e hesitações sobre as práticas de Darma. Temos dúvidas e hesitações, porque nos falta fé; quando a fé se manifesta, as dúvidas não conseguem permanecer.
  • A fé de almejar nos faz lutar para atingir a libertação do samsara e, assim, nos salva dos “quatro rios” – nascimento, doença, envelhecimento e morte. Alguns tipos de fé agem como antídoto direto às obstruções-delusões e às obstruções à onisciência. Por exemplo, porque a concentração-vajra do caminho da meditação está associada com a fé de acreditar na vacuidade, ela serve de antídoto direto às mais sutis obstruções à onisciência. A fé é a fonte do siddhi, ou aquisição, de felicidade, porque felicidade é o resultado de ações virtuosas e todas as ações virtuosas são motivadas por fé.
  • A fé de admirar afasta defeitos tais como ter uma má motivação ou enxergar falhas em nosso Guia Espiritual ou outros seres sagrados. Apaziguando a turbulência mental causada por concepções perturbadoras, a fé torna nossa mente lúcida e clara. A fé desfaz nosso orgulho e é o fundamento para gerarmos respeito pelas Três Jóias e por nossos Guias Espirituais.
É a riqueza suprema porque, ao contrário dos bens materiais, ela nunca nos desaponta. Para acumular fortuna, freqüentemente temos que suportar privações físicas e mentais e até cometer ações negativas; entretanto, mesmo que a sorte nos sorria, nunca encontramos nesse tipo de riqueza a experiência de pura paz e felicidade. Ademais, riqueza material é algo que pode ser perdido, roubado ou expor nossa vida a perigos. Vemos assim que riqueza exterior é fonte de muita ansiedade e descontentamento. Por outro lado, nossa riqueza interior, a fé, só nos traz felicidade. Se a fortalecermos, todas as nossas ações serão virtuosas e, quando formos ricos em fé, sentiremos felicidade pura e duradoura. Essa fortuna não pode ser destruída pelo fogo, nem roubada por ladrões; nem mesmo a morte pode tomá-la de nós. Do ponto de vista último, a fé nos conduz à libertação e à grande iluminação e, por isso, é muito superior a qualquer riqueza mundana.
A fé pode ser comparada a um tesouro, pois é fonte de boa fortuna e benefícios inesgotáveis.

Denomina-se “pernas supremas” porque nos capacita a atravessar os dez solos do Bodissatva e atingir a cidade da grande iluminação; pernas comuns só nos levam a lugares samsáricos, mas as pernas da fé podem nos conduzir à Terra Dakini, onde encontraremos Heruka e Vajrayogini, ou a Sukhavati, a terra pura de Buda Amitabha. A fé também é chamada de “mãos” porque, assim como utilizamos as mãos para juntar coisas materiais, precisamos da fé para acumular virtudes, a riqueza interior.

Classificação da fé
Existem três tipos de fé:


1. A fé de acreditar;
2. A fé de admirar;
3. A fé de almejar.

  • Fé de acreditar é uma crença em qualquer objeto conducente ao nosso desenvolvimento espiritual, como os dois objetos básicos (as duas verdades), os dois caminhos (método e sabedoria) e os três corpos resultantes de um Buda. 
  • Fé de admirar é um estado mental tranqüilo e lúcido, livre de concepções negativas, que surge quando contemplamos as boas qualidades dos objetos virtuosos ou dos seres sagrados, como nosso Guia Espiritual. Ela pode ser comparada a uma jóia mágica dotada do poder de purificar água suja. Quando nossa mente está perturbada por concepções negativas, a fé de admirar tem o poder de fazer com que esses pensamentos impuros assentem, permitindo que nossa mente primária torne-se lúcida e pura como água fresca.
  • Fé de almejar é o desejo de seguir qualquer caminho de Darma, por reconhecer as qualidades positivas desse caminho. Todas as aspirações virtuosas pertencem a essa categoria, como, por exemplo, o desejo de se tornar um Buda tendo identificado as virtudes desse ser iluminado. Embora a bodichita seja uma mente primária e não um fator mental, ela possui duas aspirações – atingir a iluminação e beneficiar os outros – e ambas aspirações são classificadas como fé de almejar. A renúncia também pertence a essa categoria. 
A fé de acreditar baseia-se na fé de admirar, mas é muito mais forte e bem definida. Até animais desenvolvem, às vezes, a fé de admirar, mas não a fé de acreditar, pois esta requer a adoção consciente de uma visão especial. 

A fé permeia todas as mentes virtuosas, assim como o espaço permeia todos os lugares. Qualquer mente virtuosa está misturada com fé.
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